Os 7 erros que mais vi cometerem na primeira importação

O mercado internacional é um lugar tentador para quem desejar comprar, não apenas por preço, é o acesso a novas tecnologias, novidades ainda desconhecidas no Brasil, uma commodities capaz de reduzir o preço final do seu principal produto, um maquinário novo para sua planta ou até mesmo alugar equipamento para uma obra específica.

Mas importar é cruelmente custoso com quem se aventura na inexperiência, os riscos são altos, os procedimentos e legislações são complexos, cheio de exceções e raramente são simples como parecem. Gostaria de estar exagerando, mas infelizmente vi pessoas queimarem suas economias e empresas quase fecharem as portas.

Os erros abaixo estão na ordem que mais comumente vejo ocorrer, pois é complicado definir entre eles qual é o mais sério pois os prejuízos podem variar dependendo do produto, montante pago, tipo de embarque, entre outros… mas vamos deixar para se aprofundar detalhadamente nos futuros artigos.

1 – Não escolher o profissional correto para realizar a importação.

Se não há ninguém dentro de sua empresa cuidando das importações, provavelmente você precisará de uma empresa especializada, podendo ser uma Trading Company, Comercial Importadora e Exportadora ou Despachante Aduaneiro.  Mas não escolha simplesmente o mais barato pois este é um dos menores custo na maioria dos casos.

E não é só manjar de importação e da parte documental, é preciso entender da sua mercadoria. Não se reúna apenas com o departamento comercial, converse com o operacional deles, pergunte quando foi a última vez que importaram algo como o seu produto, como foi, se existem trâmites especiais… eles precisam provar com experiência que entendem.

Também garanta que seu contratado seja proporcional a sua compra, não é necessário contratar a maior Trading Company do Brasil para uma importação de 5 mil dólares, provavelmente um despachante aduaneiro autônomo ou microempresário baste, porém se for um grande investimento, foque em quem possui capacidade financeira correspondente para assumir prejuízos de negligência.

Por último, pergunte quem são os principais clientes e solicite a opinião deles. Sério, importação custa muito caro para você se arriscar por causa de uma ligação não feita.

2 – Pagar adiantado

Se você tiver problemas com uma compra nacional feita pela internet, ferramentas para te ajudar é o que não falta, pode estornar o cartão, procurar o Reclame Aqui,  fazer barulho em rede social… e convenhamos que mesmo assim tende a ser demorado e desgastante. Agora mensure a dificuldade para reivindicar um pagamento em outro país, não há um Procon internacional para cuidar disso.

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“Jonas, o vendedor disse que consegue produzir minha máquina em 30 dias, mas só se eu pagar hoje porque ele tá cheio de pedido, to pagando aqui, blz?” – Fonte

Calma amigo que a lei de Gerson não é seguida apenas por brasileiros, confira primeiro  quem é esse vendedor cheio de pedidos e solicite o contato de outros clientes (de preferência do Brasil). Seu agente de carga pode ajudar nessa situação por ter parceiros pelo mundo todo, para confirmar no mínimo que a empresa existe e continua de pé.

Considerando que foi confirmado ser um vendedor idôneo, lembre que sua melhor barganha é o pagamento, uma das estratégias é parcelar conforme eventos, aceite adiantar 10%, outra parte quando confirmada a prontidão para embarque e por último depois de chegar até suas mãos para avaliar se recebeu conforme encomendado.

3 – Aceitar todos os termos do vendedor

Prepare-se para encarar vendedores bem complicados, para mim o mercado chinês e seus vizinhos são os mais flexíveis (porém a qualidade…), mas tenho boas experiência onde tende a ser mais engessado, como Estados Unidos e Alemanha… uma vez quase que cancelei uma compra no Canadá (justo esse país com a fama do povo ser o mais gente boa), pois o vendedor reclamava de tudo, até de precisar imprimir e assinar a mão a Fatura comercial.

Sejam poucos ou muitos aspectos que não aceitem ceder,  eles podem lhe gerar outros riscos e custos extras na importação, por isso solicite ao seu profissional escolhido que lhe assessore durante a negociação, porque depois do aceite (ou ter cometido o erro anterior), seu poder de barganha já era.

E se mesmo assim a negociação estiver complicada, procure outro fornecedor, o mundo é um lugar bem grande.

4 – Não estar estar habilitado no Siscomex

Para nacionalizar sua mercadoria importada, é preciso fazer o Despacho Aduaneiro via Siscomex, registrando a Declaração de Importação e providenciando os demais trâmites neste sistema.

E obviamente que não é só acessar o site, informar o CNPJ e começar a brincadeira, é necessário estar habilitado. Normalmente quem providencia é o contador mas certifique-se que ele tem experiência pois é uma burocracia demorada para preparar e mais ainda para a Receita Federal analisar.

Nesse link da RFB, tem um manual que orienta bem como providenciar, neste outro consta diversas perguntas e respostas que são importantes checar. E se você já estiver habilitado, cuide pois ele fica inativo se não realizar operações no Siscomex por mais de 18 meses

Depois de olhar os links acima, acabará concordando comigo que a melhor dica para esse tópico é:

Não embarque nada antes da habilitação estar Ok.

”Mas o contêiner só vai chegar em Santos daqui 35 dias! Dá tempo!”

Me dá um nervoso só de escrever essa frase.

5 – Não saber a NCM ou classificar incorretamente.

A sigla significa Nomenclatura Comum do Mercosul, que é nossa fonte de categorização padronizada de produtos do bloco econômico, ela é baseado no Sistema Harmonizado (SH) que foi desenvolvido pela Organização Mundial das Aduanas. É encontrado facilmente perto da descrição do produto de qualquer NF.

É com ele que se pode conferir as alíquotas dos impostos, se é possível aplicar alguns benefícios fiscais e se precisa da anuência (autorização) de algum órgão para importar, por exemplo: A ANVISA cuida de medicamentos, brinquedos é com Inmetro e móveis de madeira com o Ministério da Agricultura.

Existem também produtos que não precisam de anuência alguma, mas outros requerem antes mesmo do embarque, e a multa é pesada se embarcar sem autorização (30% do Valor Aduaneiro, mínimo 500 e no máximo 5000 reais), além de todo o tempo que você perderá e pagará de armazenagem até conseguir essa anuência… a, e ainda tem mercadoria que precisa da bênção com mais de um órgão.

Esses problemas também ocorrem se classificar incorretamente, o exportador pode até ajudar com o código mas confirme com seu profissional de importação, pois esse trabalho é bem comum para ele.

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Menção nada honrosa para os campeões que classificam incorretamente de propósito para pagar menos impostos. Para eles, o produto acima não se chama prancha de surf e sim “Outras obras de fibra de vidro”. – Fonte

6 – Não prever todos os custos.

Não se pode definir o custo de toda importação com uma porcentagem fixa do valor da compra, normalmente o fazem apenas com peso bruto, valor de compra e a NCM, mas ainda assim é pouco para definir. Como a mercadoria está embalada? Quando ela ficará pronta? Quais os custos nesse porto de destino? Tem benefício fiscal? É carga perigosa?

Essas são apenas algumas perguntas a serem respondidas, mas este erro será evitado caso seu profissional de importação já o acompanha antes mesmo da compra.

Mas se ainda não sabe…

“Oi! Me ajuda com essa importação, é um volume de 500Kg alto, mas coube num container só, paguei 50 mil dólares, vê aí quanto vai custar pra importar ligeiro porque o container já tá indo pro porto, embarca amanhã. Veja se consegue descobrir a NCM com essa foto e me passa os custos.”

E quando abro a imagem, começo a me perguntar porque não escrevi esse artigo antes.

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Calma gente, é só uma situação hipotética bem forçada, a história da Asali é bem mais tranquila.

Só imagina a burocracia e trâmites logísticos para importar essa moça com segurança e conforto, a complexidade é tamanha que merece uma monografia. Agora digamos que o comprador informou no dia seguinte que essa girafa da foto é na verdade uma estátua?

Seu profissional de importação teve um ataque cardíaco a toa pois isso simplifica bastante os trâmites… ainda é uma carga volumosa que demanda cuidados logísticos, mas altera severamente a operação e mesmo assim haverá custos que poderiam ter sido evitados.

7 – Negociar com frete incluso.

Se deixar com o vendedor, ele cobrará de ti o valor do frete + o risco da variação do preço proporcional ao prazo de prontidão de sua mercadoria. Este custo oscila demais e tem diversas forças influenciando, tanto no modo aéreo quanto marítimo.

Mas o risco neste erro que realmente preocupa, encontra-se no agente de carga que ele contratará, bem provável que ele não lhe atualize sobre a importação, não avise quando embarcou, contrate a rota mais demorada e cobre valores absurdos de você quando chegar no Brasil… pois é, tem custo para o importador mesmo com frete incluso.

“Sua carga vai levar 40 dias a mais que o normal para chegar, mas é porque reservamos espaço nesse navio que emite 0% de poluentes!” – Fonte

“Ah mas o vendedor garantiu que vai embarcar com o agente X que está entre os 10 maiores do mundo em volume de carga.”

Isso não é garantia de serviço competente, esse agente pode ser incrível na Europa, mas ainda pecar muito no Brasil. E aqui também se aplica o que eu mencionei no primeiro erro:

(…)foque em quem possui capacidade financeira correspondente para assumir prejuízos de negligência.

Sério, é tranquilo de cotar por aqui, pesquise uns 3 agentes perto de você, peça ajuda para quem está lhe assessorando na hora de comparar, pode também deixar para ele cotar mas a decisão final tem que ser sua.

E se ainda estiver na dúvida, pergunte o valor do frete do vendedor para comparar com essas cotações, raramente eles batem os preços ofertados pelos agentes brasileiros.

***

Considero essencial tratar cada importação como um projeto que se inicia com seu profissional de importação, agente de carga e também o vendedor (ele quer vender, certo? Então vai te que ajudar). Com estes três, já é possível progredir com a negociação, definir a logística internacional, preparar a burocracia para os órgãos anuentes, verificar a viabilidade e preparar o fluxo de caixa para atender os custos conforme o escopo da operação.

Reforço que esta lista considera apenas minha experiência, outro erro comum é importar sem contratar seguro internacional, mas testemunhei pouquíssimas vezes ocorrer. A explicação em cada um foi abrangente e foi apresentado poucas consequências, pois há diversas variáveis que não cabem num único artigo, todas elas receberão uma abordagem mais profunda nos próximos textos.

Já passou por essas e outras?

Tem uma boa história para compartilhar? Algum outro erro que aconteceu mais seguido contigo? Comente aí para irmos conversando!


                                                     Quem é o Jonas?

É um cara formado em comércio exterior, que trabalha a mais de dez anos com  importação, compras e logística internacional, e continua apaixonado pela falta de rotina que essa vida tem! Agora ele quer dividir essa experiência com todos, de forma simples e bem humorada.

Além de aprimorar a escrita no Linkedin, pratica artes marciais, enfrenta eternamente sua pilha de livros, joga vídeo game desde o Atari e também curte ajudar os outros profissionalmente.

Talvez ele possa te ajudar, que tal procurá-lo?