O que aprendi no intercâmbio Work Experience.

Um dos conselhos que dei aos iniciantes no Comex neste artigo foi que um inglês de qualidade é mais importante que o diploma, acho que são raras as pessoas que conseguem desenvolver o idioma rapidamente apenas com aulas e praticando por conta, por isso sugeri morar e trabalhar fora do país.

Algumas pessoas me perguntaram como é possível morar fora e trabalhar legalmente e contei que eu participei do programa Work Experience USA. Como defendo fortemente que o profissional de Comércio Exterior deve ter inglês de qualidade, vou contar aqui alguns causos e as principais lições que tive.

Legal, mas o que é esse Work Experience?

É um programa para trabalhar nos Estados Unidos durante nossas férias de verão, é preciso estar num curso superior, ter entre 18 e 29 anos e um inglês de certa qualidade para conseguir o Visto e o emprego lá fora. Com ele, é possível trabalhar e turistar nos EUA por 4 meses.

Há outros programas, inclusive para diferentes países, o que eu gosto destes de trabalho é o fato de ser possível recuperar o valor gasto com passagem, visto e agência de viagem trabalhando… a não ser que dólar despenque uns 50% depois que for pra lá, mas difícil né?

Capturar
O visto J1 para participar do programa do jovem Jonas, de Xanxerê para o mundo! Sim, a idade me fez bem.

É uma opção viável para quem não tem condições de ir pra fora somente para estudar, pois consegue levantar uma boa grana, mas me deixa contar de como me fez bem.

Entender que todo trabalho é nobre e tem sua importância.

Aproveitarei essa importante lição para continuar explicando o programa e o farei sem firulas. Não que eu desprezasse as funções que exerci, mas fazer o trabalho te faz valorizar mais todas as ocupações e fica evidente como são importantes.

Os empregos disponíveis não exigem mão de obra especializada, alguns poucos exigem um inglês superior. Eu, por exemplo, fui trabalhar no restaurante de uma estação de Ski chamada Bear Mountain, nos horários de pico ajudava atendendo no caixa e no restante do dia, limpava mesa, chão, vidros, lavava louça, retirava o lixo, fazia de tudo, até fazer inventário ajudei.

Pois é, são trabalhos braçais, cansativos, enfrentando frios tão severos que vários dias precisei usar o freezer de bebidas como aquecedor… e olha que nasci no oeste de Santa Catarina, estou bem ciente do que é frio!

Big Bear
Difícil explicar a noção de frio por uma imagem, mas esta chega perto.

Ou você acha que iriam oferecer a um cara que nunca viram antes e nem sequer falava inglês direito, uma vaga para ficar sentadinho dentro de um escritório?

Resolver problemas na marra.

Só para situar os leitores, quando fui para os Estados Unidos em 2006, tinha 19 anos, não existia Smartphone com Apps, a rede social era o Orkut e usávamos o MSN para mensagem instantânea.

Claro que é mais fácil de se virar com a tecnologia atual, mas esta experiência é longa e complexa demais para que você esteja preparado para tudo que possa surgir: desde abrir uma conta bancária, se virar no mercado, pegar ônibus (você não vai querer torrar sua grana com Uber ou Taxi), conversar com chefe ou colegas e as todas as desventuras que vão ocorrer, como estes dois casos que lhe conto resumidamente.

Primeiro causo:

Eu e mais dois amigos pegamos um trem em Los Angeles e fomos até um ponto de ônibus para irmos à cidade que iríamos trabalhar (Big Bear Lake).

Chegando lá, descobrimos que o busão não passava no domingo.

Tentamos alugar um carro, mas não alugavam para menores de 21 anos e estrangeiros.

Tivemos que negociar com um taxista mexicano para que nos levasse, 110 dólares.

Segundo causo:

Comemorando o ano novo na casa de outros brasileiros, quase não tinha bebida pois a maioria tinha menos de 21 (você não tem noção como eles levam a sério isso lá).

Era 1 da manhã, estávamos a 2 km de casa, calçadas cheias de neve, frio de –10ºC a –15 ºC, sem carro.

Eu e outros 2 amigos, decidimos ir correndo no canto da rua para evitar a neve e chegar logo em casa.

A polícia nos para.

Perguntam que tipo de idiotas correm de madrugada nesse frio, explico que são do tipo brasileiro e respondo as demais perguntas (fator cagaço tornou meu inglês fluente naquele momento).

Nos liberam para ir para casa, WALKING, o policial enfatizou.

A me relacionar com diferentes culturas.

Achava que não teria problemas culturais nos EUA, estamos o tempo todo consumindo filmes, seriados, músicas, mas estava bem enganado, são nos pequenos detalhes do dia que sentimos a diferença.

A maioria não aceita contato maior que um aperto de mão, não dizer Thank you, Excuse me ou I´m sorry te tornarão rapidamente um rude.

Se você diz para um americano ‘’Aparece uma hora dessas lá em casa para jogar videogame’’, ele vai mesmo, com um fardinho de cerveja e aperitivos.

Certa vez dei tchau para uma colega de trabalho americana, de minha idade, com um beijo no rosto, ela já era introvertida e só voltou a conversar comigo depois que pedi desculpas por ter sido tão invasivo.

beijo
Aconteceu mais ou menos isso

E não havia apenas americanos, na Califórnia também tem muitos mexicanos, com costumes mais similares aos nossos, além deles, conheci peruanos e paraguaios, que estavam por lá no mesmo programa que eu.

Todos povos têm costumes e trejeitos próprios e só vivendo com eles para entender cada detalhe. E quanto mais culturas conhecer, melhor preparado estará para se adaptar às próximas.

Finanças pessoais.

Soube antes ainda de sair do Brasil que o salário que eu receberia seria pago quinzenalmente, ou seja, precisava ter uma reserva para os custos que não podiam esperar, como o aluguel, alimentação e transporte, por isso economizei bastante nos 6 meses antes da viagem, claro que morando com os pais facilita, mas aqui já estava aprendendo mais sobre planejamento financeiro.

Aprendi a cuidar diariamente dos pagamentos e recebimentos (tinha gorjeta também) num caderninho (não manjava de Excel ainda), separando os valores para atingir minhas metas de compras, o clássico de todo brasileiro por lá: roupas, calçados, videogame, laptop, eletrônicos e quilos de creme da Victoria’s Secret para mãe e irmã.

Victoria
Essas eram a embalagens dos cremes na época, 5 unidades por 25 doletas.

Mas morar lá fora exige um autocontrole sobre as finanças superior, pois quando se recebe em dólar não é preciso converter em Reais e assim você se dá conta de que mesmo num trabalho simples, seu salário rende muito.

Nem preciso mencionar os famosos Outlets, morando perto deles o autocontrole é mais difícil.

Seus valores serão testados.

Eu estava longe da família e de muitos amigos próximos, era a oportunidade perfeita para “meter o louco’’ sendo outra pessoa, pois quase todos os brasileiros que estavam lá comigo, moravam longe de minha cidade de residência, então não os viria pessoalmente depois de voltar.

E não precisa se esforçar para fazer coisa errada, as oportunidades vinham facilmente até você. Lembra que eu comentei acima sobre te visitarem se você convidar? Então, aconteceu mesmo, era um americano que trabalhava comigo.

Ele também vendia umas drogas por fora, me disse que podia arrumar o que eu quisesse. Nunca comprei.

O chefe da cozinha do restaurante, me dava carona seguidamente para casa, era um senhor de quase 70 anos, natural da França, uma figura engraçada. Mas toda vez que ele entrava no carro, ele acendia um belo charuto de maconha e me oferecia.

Também nunca aceitei, não curto drogas… Se bem que com os vidros fechados dentro do carro, devo ter inalado o bastante para viajar e nem me dei conta.

maconha
Não tinha farol de milha que resolvesse essa neblina.

São dois casos que me ocorreram e que testaram minha escolha de nunca usar entorpecentes, óbvio que eu jovem em outros país, fiz minhas besteiras que hoje jamais faria, sou humano como você, e não sou um bastião de pura virtude e integridade.

E se você que está lendo tem outra opinião sobre maconha ou qualquer outra droga, relaxa que eu não me acho melhor ou pior que você.

Inglês.

Claro que este tinha que melhorar, já que era o meu principal objetivo de participar desse programa, mas morar lá não fará você aprender por osmose, eu precisei puxar papo com os americanos, pedir informação quando tive dúvidas e ser humilde quando me corrigiam.

E conforme fui forçando a conversar seguidamente, sentia que as respostas começaram a fluir cada vez mais, como se fosse meu idioma nativo, mesmo não tendo muito vocabulário, e é assim que você vai evoluindo para fazer bonito nas entrevistas de emprego em inglês.

Joel Santana
No início fui bem estilo Joel Santana, mas conforme a fluência da conversação melhorou, bastou manter a prática e enriquecer o vocabulário.

Mas sugiro ir para os EUA com um inglês pelo menos intermediário, o pessoal que foi para lá sem saber falar, voltou sem ter melhorado. É preciso uma base gramatical para desenvolvê-la.

***

Quero concluir dizendo que sim, vale muito a pena a experiência, ela é mais intensa que uma viagem de turismo pois você desenvolve amizade com todos que estão lá naquele período, legal também que todos os brasileiros são iguais, ralando para fazer uma grana com empregos simples e turistar nos dias de folga. É por experiência própria que acredito que esse tipo de programa é uma das melhores opções para acelerar a qualidade do inglês.

E você, leitora (o)?

Ficou curioso para saber mais? Deixe sua pergunta. Fez o programa e teve experiências diferentes? Conte com os demais leitores como foi. Vamos continuar nos comentários!

Quem é o Jonas?

É um cara formado em comércio exterior, que trabalha há mais de dez anos com  importação, compras e logística internacional, e continua apaixonado pela falta de rotina que essa vida tem! Agora ele quer dividir essa experiência com todos, de forma simples e bem humorada.

Além de aprimorar a escrita no Linkedin, pratica artes marciais, enfrenta eternamente sua pilha de livros, joga vídeo game desde o Atari e também curte ajudar os outros profissionalmente.

Talvez ele possa te ajudar, que tal procurá-lo?

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