Causos de Importação: O 1º brinde a gente nunca esquece.

Hoje será diferente, faz tempo que desejo contar as histórias inusitadas que me ocorreram atuando no comércio exterior, ele ensina bem menos que os artigos anteriores, na verdade, nem ensina coisa muito certa, mas compensará na diversão (assim espero).

A história é real, alguns poucos detalhes foram alterados para me preservar profissionalmente. O curtir e feedback de vocês será essencial para continuar a publicar as próximas, já estou começando com uma das melhores para ter certeza se irão gostar ou não.

Aos leitores que não são da área do Comércio Exterior, sugiro ler antes este artigo para ajudar no entendimento.

E sem mais delongas, vamos ao causo. 

O 1º brinde a gente nunca esquece.

Era mais um dia calmo (até) na importação, classificando mercadorias, conferindo draft de BL, Faturas Comerciais, pedindo ao comandante para acelerar o navio, tudo sob controle e ao som de Wando Rise Against para o dia fluir rapidamente.

A caixa de e-mail recebe uma nova mensagem do exportador, resolvi conferir logo por causa do fuso horário dele:

– Favor considerar a Fatura Comercial revisada em anexo e descartar a anterior.

Confiro a referência do processo, trata-se de um container DRY de 40 pés com diversos produtos, mas já tinha embarcado, sequer abro o anexo e começo a trocar mensagens:

– Mas este processo já embarcou, atraca no porto daqui 4 dias, está correta a referência?

– Sim, faltou informar um volume, que eu achei que iria embarcar no container da semana que vem.

Enquanto mentalizo diversos xingamentos, abro o arquivo para conferir que itens são, na torcida que sejam similares ao dos outros volumes, para que eu não precise pedir retificação do conhecimento de embarque (BL).

O volume é um Plastic Bag, contendo 50 unidades de Gray Shirt.

– Exportador, pode me ajudar? Trata-se de algum acessório para tubulação? – Considerando o resto dos produtos no container, a pergunta fazia sentido.

– Não, Jonas, são camisetas que enviamos de brinde!

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Vai rolar uns memes velhos hoje.

Agora os xingamentos são pronunciados em voz alta, explico ao meu setor o ocorrido, consultamos o tratamento administrativo da camiseta e precisa de Licença de Importação (L.I), pré-embarque.

Para sanar o problema, é preciso adicionar a NCM da camiseta no BL, registrar a L.I, conseguir deferimento, registrar a D.I, recolher a multa, explicar a situação para a RF… Tudo isso enquanto a carga já está no porto gerando aquele custo bonito de armazenagem.

Analisamos a difícil situação que nos encontrávamos, e com as poucas opções disponíveis elaboramos nosso plano de ação com muita sabedoria:

– Manda o exportador tirar esse volume da Fatura Comercial, vamos fazer de contas que não sabíamos.

– Mas e se der canal v…

– Cala boca, Jonas!

Estou para conhecer um cético quando o assunto é parametrização dos canais.

Estávamos tão preocupados, que aguardamos chegar mais umas 5 importações aéreas e marítimas, para registrar todas ao mesmo tempo e assim, reduzir as chances da D.I com as camisetas cair no canal vermelho.

Mas se eu estou aqui contando essa história, vocês sabem o que aconteceu, um conto sem complicação não tem razão para ser contado.

  • 5 canais verde.
  • 1 vermelho.
  • 1 profissional de importação igual o urso do pica-pau

 

Segue o gif para os jovens que desconhecem.

Depois do porto confirmar a desova (retirada) de todo o material de dentro do container, me dirijo ao armazém para separar e identificar as mercadorias para meus amigos da RF. Quando finalmente encontro as benditas camisetas, lembro do nosso plano de ação para a vistoria:

– Deu vermelho, e agora?

– Agora nós vamos até o fim, Jonas, dê um jeito de esconder ou se livrar desse saco com as camisetas.

Ao relembrar do plano e também que toda área alfandegada é filmada 24 horas e sem ponto cego, me questionei se devia ter me tornado um cirurgião plástico, como minha mãe pediu para mantê-la jovem. Pois o saco não era pequeno como esses de lixo da cozinha, tinha 50 camisetas dentro, na cor cinza ‘’pijama cafona’’, eu mal conseguia suspender do chão devido ao tamanho.

Pensei em jogar fora, mas não havia lixo grande o bastante, talvez colocá-las no fundo de uma das caixas de madeira? Não, se pegassem ia ser óbvia a malandragem. E se eu deixar junto com a carga de outro importador? Você está sendo filmado ô jumento!

Comecei a mexer em diversos volumes aleatórios, enquanto eu deslocava o bendito aos poucos até um canto da parede, como se não fizesse parte de minha importação, virei a boca do saco para baixo, dei uma amassada e sujada para realmente parecer um saco de lixo.

Teria que ser na cara de pau mesmo, só se vive uma vez, Yolo, tudo ou nada.

Yolo

Depois de mais um chá de espera como de praxe, o fiscal chega no armazém para iniciar a vistoria:

– Bom dia, Jonas! Tudo separado para começarmos?

Pqp, ele sabe meu nome, sempre mostrei pra ele tudo que estava certo E errado, ele confia e gosta de mim, olha como ele te deu bom dia! Ele vai mexer no maldito saco, tua vida no Comex está acabada, vão queimar teu diploma, vai ter que fazer importação na ponte da amizade….se bem que lá se ganha mais.

– Bom dia! – Jonas falsiane – quais adições o senhor quer conferir hoje?

– Vamos andando pelas mercadorias que eu te pergunto o que me interessar. – Ele só pode ter sentido o cheiro de safadeza para querer perambular.

– Ok! Vou te mostrando os equipamentos mais interessantes então.

Eu parecia um cachorro pastoreio levando o rebanho de um único ser humano para todos os lugares longe do saco da mentira, sempre que se inclinava para ir em direção, eu chamava a atenção para algum equipamento caro, do qual eu explicava de um jeito mirabolante e convicto para mantê-lo interessado.

Eu sempre digo que convicção é meio caminho para acreditarem.

Corgi
Como sou dono de um Corgi, não poderia exemplificar com outro cão. Olha essas patinhas curtas! 

– Está Ok, Jonas, vamos liberar sem ressalvas, podemos ir.

– Que bom, muito obrigado! Eu vou logo também, deixei meu caderno lá no fundo. – Volto para puxar o saco para junto das demais mercadorias e já aviso a turma do armazém. – Tá liberado, pode ovar no container, o quanto antes por favor!

E você, leitora (o)?

Se leu até aqui e gostou, deixe seu curtir de coração, pois isso ajuda a definir meus próximos textos. Já passou por uma situação dessas? Algum ponto que preciso melhorar na escrita? Todos os comentários são bem-vindos para que eu possa evoluir.

E antes de ir embora, não esqueça de me seguir e fechar a porta 🙂

Quem é o Jonas?

É um cara formado em comércio exterior, que trabalha há mais de dez anos com  importação, compras e logística internacional, e continua apaixonado pela falta de rotina que essa vida tem! Agora ele quer dividir essa experiência com todos, de forma simples e bem humorada.

Além de aprimorar a escrita no Linkedin, pratica artes marciais, enfrenta eternamente sua pilha de livros, joga vídeo game desde o Atari e também curte ajudar os outros profissionalmente.

Talvez ele possa te ajudar, que tal procurá-lo?

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