Quando eu quase desisti do comércio exterior.

Era meu terceiro ano na carreira de comex, quando surgiu a oportunidade de participar de um projeto no trabalho, um pouco fora da rotina de importação, mas ainda ligado ao comércio exterior. Quando fiquei sabendo dela, me apressei a falar com meu chefão norte americano:

“Hey boss, I´m interested to work in this project, count with me.”

Confesso que não lembro se foram essas palavras, só tenho certeza que pedi apenas para participar, mas resolveram centralizar todo o trabalho em mim, o que eu adorei, é claro! Mais glória para o Jonas! Pensava assim por ser jovem, idealista e moleque por ainda achar que salário e nome do cargo me definiam como profissional.

Mas a vida estava providenciando me ensinar que ascensão profissional não vem sem custo.

Outra razão de eu ter aceitado o projeto era porque sabia que teria muita pesquisa em legislação, sempre gostei de ler o Regulamento Aduaneiro e sobre benefícios fiscais, então me divertia absorvendo o novo conhecimento, desenvolvendo a burocracia com os demais colegas. Muitos da área não curtem, mas se não existisse o Comércio Exterior com certeza teria  partido para o Direito.

Precisei me afastar um pouco do trabalho de importação, principalmente dos trâmites realizados nos portos e terminais alfandegados que consomem muito do dia – e admito ter ficado feliz, sei que foi primordial para entender mais sobre importação e desenvolver minha inteligência emocional para lidar agentes públicos, mas já estava de saco cheio de lidar com alguns deles, de comparecer com transparência e cortesia e ser recebido com arrogância e falta de educação.

“Babacas, espero nunca mais vê-los”.

Peixes Grandes.

Mas veria outros, é natural que toda essa leitura de leis me conduziria a me relacionar com outras pessoas do setor público, porém de departamentos diferentes e com hierarquia consideravelmente mais alta, eu pensava: “Se esses caras conquistaram postos tão altos na vida pública, com certeza eram pessoas corteses, não iria me incomodar como com aqueles babacas na importação”.

Inocente
Vai vendo…

Os primeiros trâmites começaram na Receita Federal (RF), foram uns 2 meses organizando e emitindo toda a documentação necessária para apresentar e mais tempo levaria para eles analisarem minuciosamente, porém estávamos tendo progresso e conforme evoluímos com a RF, já iniciávamos o trabalho com os demais envolvidos.

Conhecendo Vlad.

Após alguma pesquisa sobre este outro órgão a tratar, descobri que precisaria conversar com Vlad (fictício, né), que era o Chefe pic@ de-não-lembro-o-que em Santa Catarina, pois a legislação no assunto era muito vaga e por isso o procurei para nos dar um norte.

Conversei rapidamente com Vlad pelo telefone e ele me convidou para uma reunião no escritório no dia seguinte (uau, que rápido), fiz uma pesquisa para saber com quem iria lidar e foi quando descobri que ele era o chefe de parte dos babacas que eu aguentava no porto para liberar minhas importações.

Avisei a recepção da reunião marcada, confirmaram pelo telefone e fui conduzido até Vlad, no caminho, distribui alguns corteses “bons dias” aos babacas que reconheci no caminho, não estava sendo educado, apenas boçal de querer mostrar que hoje iria falar com o chefe deles, era nítido no tom da minha voz.

Karma
Mais uma babaquice minha pro Karma me cobrar.

Ao entrar na sala com bela vista para o porto e do tamanho do meu ego na época, cumprimento o homem que não levanta da cadeira e sequer olha nos meus olhos quando estende a mão, a conversa prossegue com educação mas era visível que Vlad era um homem instável, trejeitos estranhos, nunca olhava nos olhos quando falava e sempre aumentava o tom se levemente interrompido ou quando dizia algo incorreto.

Vlad começou a me olhar nos olhos somente quando mencionei que minha diretoria gostaria conhece-lo, mostrar mais do projeto e apresentar a estrutura do estaleiro. Claro né, o chefe pic@ não quer gastar os olhos em um analistinha, tudo bem, era nosso plano leva-lo até lá, segue o day.

Baixando a guarda.

No dia seguinte, a secretária de Vlad liga e nos avisa o horário que iria comparecer no estaleiro, nesse meio tempo, ouvi histórias de alguns colegas do setor sobre como esse Vlad tratava as pessoas, mas eu estava tranquilo, tinha tido sucesso na reunião, sabia como lidar com ele.

Achou que sabia lidar com peixe grande de órgão público?

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Duas da tarde, estávamos esperando o anúncio da chegada de Vlad, para recebê-lo de acordo com o ego dele. Duas e vinte e nada ainda, ele não estava nem a 10 minutos do estaleiro, resolvi ligar para a guarita e perguntar:

– O meu guerreiro, estamos esperando o Vlad do XYZ chegar, nada ainda?

– Chegou um carro no estaleiro com essa sigla, entrou junto de um outro que eu achei que  o acompanhava, ele pareceu perdido aqui dentro e  foi embora menos de 5 minutos depois sem dizer nada.

Imediatamente comecei a suar frio, o BPM do coração fazia parecer estar pulsando na minha garganta, eu relaxei na arrogância e esqueci de avisar a primeira pessoa que iria ter contato com ele, para instruí-lo onde estacionar. Contei para meu gerente do ocorrido, que se limitou a dizer:

– Você vai ter que ligar pra ele.

O projeto estava centrado em mim, eu que fui ver Vlad, marquei a reunião, não podia ser frouxo agora. Aguardei mais 10 minutos até dar o tempo dele voltar para a sala… e quem sabe não estar tão bravo.

Fiz a ligação com as nádegas rígidas feito criança antes da surra, perguntei à secretária se Vlad estava, ela pede para aguardar, toca o som de ligação transferida quando ouço

ALÔ!!!!!!!

Bravo não definia, ele estava era puto, pistola, mais do que eu em todos os embarques sem autorização juntos que já lidei nessa vida, tudo porque tinha se ofendido por não ter sido recebido como julgava merecer.

Mal consegui terminar um frase e ele começou a esbravejar toda sua fúria, no início mais fiquei impressionado com o exagero, daí vieram os insultos diretamente a mim, idiota, incompetente, merdinha, ignorante, que cuidaria pessoalmente para esse projeto nunca seguir em frente, afastei levemente a orelha do telefone e meu chefe olhou espantado com o volume da voz, engoli tudo aquilo quieto, preferi pensar no projeto que na minha saúde.

Que saudade eu tinha ficado de trabalhar com aqueles babacas do porto, quando ele terminou, desligo o telefone com a adrenalina e ódio nas alturas, meu chefe pergunta:

– Como foi?

Eu tinha absorvido muito sem devolver, coisa que um boca aberta como eu não estava acostumado, por isso não lembro o que disse ao meu chefe. Mas lembro que chorava muito enquanto contava, chorava de soluçar, foi a forma que meu corpo encontrou para externar toda aquela negatividade.

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Aproveitei que faltava pouco para o dia acabar e que ninguém mais tinha me visto para ir embora mais cedo, não tinha mais condições de trabalhar e não queria que me vissem naquele estado, pessoal de estaleiro costuma ser escroto com quem demonstra ‘’fraqueza’’.

Acho que essa vida não é pra mim.

Era o que eu pensava no carro a caminho de casa, enquanto continuava chorando e planejando um monte de maluquices para retalhar Vlad, se ele sozinho foi capaz de acabar comigo, quanto tempo eu aguentaria? E se existissem outros assim?

Contei aos meus pais do ocorrido, bem resumidamente pois não queria ter contado naquela hora, só queria ficar quieto no meu quarto, mas meu rosto não conseguia esconder. Depois de contar, meu pai que é de poucas palavras e nunca de passar a mão na cabeça, me respondeu (mais ou menos) isso:

‘’Gente assim existe em qualquer trabalho”.

Nada como um dia após o outro

Como diria Os Racionais, segui em frente e tive que ser rápido, meu chefe no dia seguinte ligou para ele e conseguimos marcar uma segunda reunião, e adivinha para quem que sobrou levar Vlad passear de carrinho (estilo aqueles de golf) pelo estaleiro? Pois é, foi meu diretor quem sugeriu, ele não sabia o que tinha acontecido, melhor assim.

Rock

Era disso que o Rocky estava falando.

Estava mais calmo, porém confesso que quando passei perto do cais, me perguntei se Vlad sabia nadar, também prendi o ar nas duas vezes que passei perto do setor de jateamento e granalha para dar aquela judiada nos pulmões dele. Pelo menos agora olhava nos meus olhos, acho que estava arrependido pelo jeito que me tratou.

Mas nunca pediu desculpas, a cicatriz ficou, me tornei mais forte para o próximo babaca, mas a gente não supera essas situações, apenas aprende a lidar.

***

Não escrevi para ser uma história de superação e muito menos para me taxar de guerreiro, eu apenas segui em frente. Esse foi o meu primeiro Vlad, vieram outros depois e todo mundo tem os seus na vida profissional e pessoal, são colegas, superiores, ‘’parceiros’’ comerciais.

Hoje sou mais forte, mas também tenho bem definido o quanto aceito tolerar, nossa saúde não pode estar abaixo do trabalho, respeite seus limites.

E você, leitora(o)?

Como você lida com seus Vlads? Como foi lidar com o seu primeiro? Algum conselho para mim e aos jovens profissionais que não passaram por um dessas ainda?

Ah! E não esqueça de me seguir para receber os próximos artigos 🙂

Quem é o Jonas?

É um cara formado em comércio exterior, que trabalha há mais de dez anos com  importação, compras e logística internacional, e continua apaixonado pela falta de rotina que essa vida tem! Agora ele quer dividir essa experiência com todos, de forma simples e bem humorada.

Além de aprimorar a escrita no Linkedin, pratica artes marciais, enfrenta eternamente sua pilha de livros, joga vídeo game desde o Atari e também curte ajudar os outros profissionalmente.

Talvez ele possa te ajudar, que tal procurá-lo?

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