O comodismo no comércio exterior pode lhe causar mais que prejuízos.

Seu Reginaldo adicionava açúcar em seu café numa quantidade que o impossibilitaria de se aposentar no Brasil, quando o diretor o percebe na cozinha da empresa e pergunta:

– Reginaldo, o que você entende de comércio exterior?

– Hum, leio os textos de um cara que escreve sobre isso no LinkedIn, mas não tenho expe…

– Muito bem, queremos importar um container de cabos elétricos, você será o responsável pela importação. – Seu Reginaldo, estagnado como gerente financeiro há 5 anos, analisa a oportunidade em 2 segundos e responde.

– Chá comigo!

– Ótimo, comece agora, é urgente!

Após passar o nervosismo causado pela decisão mal pensada (ou pelo excesso de açúcar), Reginaldo pergunta para os amigos do feirino se alguém conhece uma empresa que faça importação, quando um deles responde:

– Meu sobrinho trabalha no RH de uma Trading Company, liga para ele e pergunta quem é o comercial lá.

Ao ligar, desesperado por não saber nem por onde começar com a importação, seu Reginaldo explica o básico da operação, junto de algumas frases que fazem os olhos de qualquer comercial brilhar.

  • Eu não entendo nada de comércio exterior;
  • Não conheço mais ninguém para ligar;
  • Você consegue fazer a operação toda com o exportador? Nem português sei falar direito.

Após fornecer todos os dados para que o comercial possa trabalhar, ele recebe a previsão de custo somado ao valor do serviço da Trading Company, era exorbitante, mas não tinha conhecimento e nem como comparar com outros pois não fez questão de ir atrás.

– Ok, aprovado, pode iniciar a operação. – Disse o diretor de Reginaldo que entendia menos ainda de comércio exterior, simplesmente empurrou o trabalho para o 1º que viu na empresa pois pensava:

Se o filho dele de 14 anos comprava cacarecos no Ali Express, o Reginaldo era mais do que capaz de cuidar de um contêiner de cabos.

O terror da operação

Apesar da importação ter ocorrido dentro dos valores apresentados (seja lá quanto foi isso), o pouco contato que teve com a complexidade foi o bastante para aterrorizar Reginaldo, conseguir o RADAR, aprovar documentos de embarque, classificar mercadoria, elaborar descrição…

Colonizar Marte ou discutir política na internet lhe parecia ser mais fácil.

Marte

Entre esses dois, sabemos qual ocorrerá primeiro.

Como seu diretor concluiu que a operação foi um sucesso (baseado em p#&R@ nenhuma) e Reginaldo julgava ter tido sorte de ter conseguido uma empresa tão competente para realizar o serviço (novamente, sem dados para mensurar), nosso amigo tomador de açúcar com café conclui que para as próximas importações  será melhor

Não mexer em time que está ganhando.

Estava bom assim, Reginaldo informava a Trading Company sobre a nova compra e solicitava semanalmente novidades das importações, seu contratado cuidava de tudo: contratar frete internacional, despacho aduaneiro, até decidir em qual porto ia descarregar e qual transporte rodoviário usar.

Mas para Reginaldo, isso era trabalhar com Comércio Exterior, tinha até adicionado a função na assinatura do e-mail afinal, é chique dizer que trabalha com Comex.

O terror se transforma em comodidade.

Conforme foi se tornando uma rotina na empresa realizar importações e Reginaldo já não mais se assustava com a burocracia básica, naturalmente que outras empresas do ramo o procurassem para oferecer os serviços, mas o comodismo não o incentivava a aprender mais sobre, a melhorar as operações, ele pensava:

– Deixa a Trading Company lá fazendo tudo, nem meu diretor está preocupado, por que eu deveria?

Claro que para as empresas que o procuravam, a resposta precisava ser outra para não evidenciar a preguiça, se quem o procurasse fosse um:

Despachante Aduaneiro

Respondia que trabalhava há anos com o mesmo e não precisava de outro, ou que o despacho aduaneiro era feito internamente.

Agente de Carga

Mentia dizendo que importava apenas com frete incluso (realmente esperamos que seja mentira).

Trading Company

Mesmo depois de provado com números que é possível economizar e ser mais eficaz, Reginaldo responde que em nome da parceria, não poderia trabalhar com outro.

Portos e Armazéns alfandegados

Diz que conversará com a Trading para ver se é uma boa mudar, mas gosta como o porto atual cuida com carinho de sua carga.

Porto de Rotterdam

Sim, muito carinho.

Quais as consequências para a empresa?

Reginaldo e seu diretor estão simplesmente queimando dinheiro e consequentemente atrasando o crescimento da empresa e sobrecarregando os outros setores, obrigando-os a conseguirem compensar o custo estratosférico e a logística amadora das importações.

Óbvio para todos do comex, mas o que me preocupa é

Quais as consequências para o Reginaldo?

Estas empresas de comércio exterior que procuraram Reginaldo e sempre receberam um Não como resposta, tem condições de descobrir através de dados e pelos bastidores que, na melhor das hipóteses, o Reginaldo é um:

Burro e acomodado

Que só vai mudar no dia que a atual Trading Company cometer um erro gigantesco ou outra pessoa assumir as importações, mas o que estão pensando mesmo, é que Reginaldo é:

Corrupto

Deve estar ganhando por fora uma % da comissão da Trading Company mais uns USD200,00 por container do Agente de Carga e o despachante aduaneiro paga a ele uma meretriz toda quarta-feira no dia do ‘’futebol’’.

Achou que eu forcei a barra nessa última? Mas acontece.

***

Infelizmente não acredito que quem deveria ler esse texto sequer me siga, quem me acompanha quer distância da comodidade.

Porém, não é incomum trabalharmos com e para pessoas que vivem no comodismo, estes, mesmo havendo um setor de Comércio Exterior na empresa, insistem em ser a âncora do progresso, através das desculpas esfarrapadas que exemplifiquei e passando a mão na cabeça dos prestadores de serviço caros e incompetentes que utiliza, dizendo que é preciso trabalhar a relação de parceria.

Aham, parceria…

E sendo essa âncora burra ou corrupta como nessa história, pensarão o mesmo dos demais que trabalham com/para ele.

Tampouco sou a favor de leiloar os serviços e visar apenas trabalhar com o mais barato, mas isso é assunto para um futuro texto.

E você leitora (o)?

É comum se deparar com acomodados em suas vendas? Consegue conquista-los ou não vale o tempo? Já trabalhou com um acomodado? Conseguiu fazê-lo melhorar ou desistiu?

Leitura complementar: 5 benefícios de possuir um setor de importação dentro da empresa


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Quem é o Jonas?

É um cara formado em comércio exterior, que trabalha há mais de dez anos com importação, compras e logística internacional, e continua apaixonado pela falta de rotina que essa vida tem!

E ele gosta de dividir essa experiência com todos, de forma simples e bem humorada pois, a leitura não pode ser um fardo para ensinar.

Além de aprimorar a escrita no LinkedIn, pratica artes marciais, enfrenta eternamente sua pilha de livros, joga vídeo game desde o Atari e também curte ajudar os outros profissionalmente, seja trocando uma ideia ou com soluções para quem está em apuros.

Talvez ele possa te ajudar, que tal procurá-lo?

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