Precisamos conversar sobre a banalização do “Inglês Fluente”.

Sempre digo que dominar o Inglês é mais importante que um diploma no Comércio Exterior, mas tem uma turma anunciando vagas de um jeito que o bom senso manda lembrança!

Faz sentido uma empresa nacional anunciar uma vaga de Assistente de Exportação, com vistas em alguém novo, inexperiente, que precisará trabalhar com documentos, tratar com Despachantes Aduaneiros e clientes (no Brasil) e exigir entre os pré-requisitos Inglês Fluente?

Em alguns pouquíssimos casos, faz sentido, mas creio que sejam a minoria e por isso quero conversar a respeito.

E quando digo conversar significa que vou expor meus pensamentos com base no que vivenciei e poderemos continuar a conversa nos comentários.

Por que tantas empresas de Comércio Exterior exigem Inglês fluente?

Com certeza há empresas que demandem de seus funcionários um Inglês de alta qualidade, pois irão reportar e se relacionar diretamente com um ou mais estrangeiros, seja presencialmente, por telefone ou videoconferência (parem de chamar de “call”, nosso idioma é vastíssimo e tem uma palavra para isso).

Mas não é sobre estas empresas que vamos tratar. Escolhi abaixo os sintomas que mais presenciei para dizer umas verdades.

Vaidade.

Tem vaidade sim!

Cansei de receber contato de comercial, seja por meio daqueles “powerpoints” horríveis ou por telefone dizendo que todos da empresa sabiam falar Inglês Fluente.

E o primeiro pensamento que me vem à cabeça é:

Pra quê!?

“Não é vaidade, é uma estratégia comercial para dizer aos nossos clientes que somos altamente capacitados”.

Quer chamar a atenção dos seus clientes? Ensine Inglês para quem não sabe e pare de dificultar para quem teve menos oportunidades.

Isso é, inclusive, uma saudável maneira de reter seus melhores profissionais.

Alta disponibilidade de mão de obra.

Nossa população não sabe falar Inglês. Para ser preciso, notícias de 2019 acusam que apenas 5% da população consegue se comunicar em Inglês e apenas 1% é considerado fluente.

E, diante da minha própria experiência e testemunhando casos de outros colegas, noto que é quase natural que pessoas que gostem de aprender outros idiomas e conhecer diferentes culturas busquem profissões que atendam tais afinidades, em áreas como Comércio Exterior, Turismo, Logística e Relações Internacionais.

Consequentemente, boa parte desses 5% estão nessas áreas, o que resulta numa alta disponibilidade de mão-de-obra que fala Inglês (e bem) e que, devido à falta de vagas dentro de suas áreas de formação, está disposta obriga-se a ganhar menos por ainda não ter tanta experiência prática.

Falta de padronização de nível de Inglês.

Você já parou para pensar quais critérios as empresas usam para considerar o nível de Inglês de um candidato como “Fluente”?

Tive colegas que, na minha opinião, se comunicavam melhor que eu em Inglês e, por isso, os considerava fluentes… não considero que meu nível seja fluente, talvez 70% fluente, sei lá.

Minha mãe, que não fala nem entende nada de Inglês, me considera fluente depois de ter visto eu conseguir me comunicar; por outro lado, alguém cuja língua materna seja o Inglês certamente não vai me considerar fluente.

O que quero dizer com estes exemplos é:

Quanto menos a pessoa que contrata ou entrevista domina o idioma, maior a chance dela considerar um Inglês mais ou menos como Avançado ou Fluente.

Ela pode até considerar um candidato mais fluente que outro, mas vagas de emprego já envolvem por si só o fator sorte (sem mencionar o fator QI), então para quê adicionar mais caos à equação?

O problema de exigir fluência à toa é que gera frustração nos profissionais.

Sim, tem a turma frustrada porque não vai viajar pelo mundo fazendo comércio no exterior (não por falta de aviso, só eu falei disso em 2018 e tem mais uma galera da área avisando).

Agora pensa o profissional que gosta de se comunicar em Inglês, conseguiu uma vaga que exigia a fluência e, na hora de trabalhar, seu contato com o idioma se resume a documentos e alguns e-mails em que esteja copiado.

“Mas o jovem precisa ter paciência também!”

Ué, você exigiu Inglês Fluente na hora de contratar, é claro que ele vai criar expectativas!

E essa expectativa vai virar frustração, logo, as chances deste funcionário largar o trabalho diante de outra oportunidade mais realista são maiores.

E aí fica você reclamando que ninguém para na sua empresa.

Que tal descrever na vaga de que forma o Inglês será necessário?

Ao invés de discutirmos o que caracteriza um Inglês (ou qualquer outro idioma) básico, intermediário, avançado ou fluente, que tal explicar na descrição das atividades em que funções ou situações o Inglês será necessário? Por exemplo:

  • O Inglês será necessário para analisar documentos de embarque e e-mails de follow-up recebidos das origens.
  • Precisamos que seu inglês seja capaz de compor e-mails, atender ligações e participar de reuniões para registro em ata do que foi discutido.
  • É preciso Inglês com qualidade para ofertar nossos produtos por telefone e/ou e-mail para nossos clientes nos EUA.
  • Seu superior direto será chinês, portanto, toda a comunicação com ele, pessoalmente, por telefone e e-mail, será realizada unicamente em Inglês.

Explicando dessa forma elimina-se o problema de tentar nivelar o Inglês em palavras, pois fica mais claro o quanto a pessoa vai precisar ser boa na escrita, conversação e compreensão.

Ainda mais porque ninguém é igualmente bom ou ruim nestes 3 aspectos.

Candidato que nivela a qualidade do Idioma por baixo vai se sentir mais seguro para se candidatar e quem acha que tem inglês (seja por bem ou malandragem) ficará mais intimidado de enviar o CV para uma vaga que deixou claro o cotidiano da necessidade.

E você, amiga(o)?

O que acha disso? Não estou revolucionando o Comércio Exterior com essa sugestão, já vi empresas aplicarem essa ideia, inclusive quando estava me candidatando.

Você também acha que as empresas de Comércio Exterior estão exigindo Inglês fluente à toa? O que achou dessa ideia? Tem outras sugestões? Vamos continuar conversando nos comentários.

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