A simples postura de um agente de carga que fez me sentir cuidado.

Era a primeira Importação que havia fechado com esse Agente de Carga, ele havia concordado com todos os termos e requisitos para começar a me atender.

Tratava-se de um embarque FCL da China, quando o valor do frete ainda custava menos que um Play Station 5… Pior que isso nem faz tanto tempo…

Era uma operação tranquila, contêiner Dry, sem carga perigosa, longe de Peak Season e do Ano Novo chinês.

O atendimento seguia com a qualidade exigida, mas foi no dia que o contêiner chegou no porto de destino que eles me surpreenderam.

O que eles fizeram?

Após receber o Follow-Up da descarga da mercadoria, cerca de 30 minutos depois recebi outra mensagem automática, dizendo mais ou menos assim:

Olá Jonas!

O contêiner do processo X já se encontra no porto de destino e, com isso, inicia-se hoje a contagem do free time da Demurrage de Contêiner.

Seu free time é de 30 dias, portanto, é necessário que devolva o contêiner até o dia Y, para que não ocorra cobrança de Demurrage.

Segue abaixo o endereço do terminal de devolução do contêiner vazio:

Qualquer dúvida, nos procure.

Este era um processo com nacionalização demorada, que exigia conferência física de certo órgão anuente e, por causa disso, o mesmo Agente de Carga me surpreendeu novamente.

Mas agora não por e-mail, por telefone:

– Oi Jonas! Já devolveram o container do processo ___? Já passou 10 dias da descarga e não tivemos mais novidades sobre ele.

Por que isso me impactou?

Pois até esse momento:

Primeiro, nunca havia recebido uma mensagem de Agente de Carga com tamanha ênfase e preocupação com a Demurrage de um contêiner.

Segundo, não me lembro se alguma vez ocorreu de um Agente de Carga me ligar preocupado com a tal Demurrage ainda dentro do prazo do free time.

Ou seja, me impactou positivamente porque realmente senti que estavam preocupados em realizar a operação com qualidade E que estavam preocupados com o sucesso dela.

O quão difícil foi para esse agente de carga agir assim?

Se você tem um sistema de gerenciamento de Comércio Exterior com um mínimo de qualidade sabe que não é preciso um departamento de TI para programar o envio automático de um e-mail alertando o responsável pela operação N dias antes do vencimento do free time.

Mas não foi uma questão de programação de software, foi como eles decidiram tratar o cliente.

E eles provaram isso com um e-mail e um telefonema, pois para mim se você quer saber se um Agente de Carga é confiável veja como ele trata o assunto Demurrage, já vai lhe dar uma bela noção.

***

O curioso desse caso é que o comercial deles não enfatizou essa política de tratamento quando apresentou a empresa, talvez não tivesse noção do quão importante esses dois gestos foram para provar (com ações) que se importavam comigo, o cliente.

Eles abriram mão de algo (ou ao menos, em partes, você sabe do que estou falando), em prol de fidelizar o cliente.

E funcionou comigo.

E você, amiga(o)?

Não invento história e não será agora que começarei a fazê-lo, isso realmente aconteceu e não havia testemunhado outros Agentes de Carga realizarem algo assim antes…

Azar? Bolha? Não sei, com certeza existem outras empresas que realizam algo similar e para diferentes situações, então me diga você:

Já sentiu seu processo cuidado dessa forma ou de outras maneiras? Isso te influenciou ou influenciaria na decisão de quem contratar para os próximos embarques?

Sei que Demurrage é um assunto ótimo para falar mal, mas vamos tentar ser positivos nos comentários.

E se você, Agente de Carga, realiza tal cuidado ou similar, fique à vontade para dizer 🙂

Não é ilegal armadores e agentes de carga cobrarem a taxa cambial acima da PTAX?

O plano era tratar desse assunto no último artigo que expliquei como funciona a taxa cambial cobrada no frete internacional, mas a verdade é que ele requer um texto próprio devido sua complexidade e necessidade de uma abordagem prática que vai além de analisarmos ser ou não ilegal armadores e agentes de carga cobrarem a taxa cambial acima da PTAX.

No comércio exterior já estamos acostumados (contra a nossa vontade) a pagar valores ilegais quase que diariamente, a exemplo da Taxa de Utilização do Siscomex e o encarecimento do Valor Aduaneiro ao adicionar o THC em seu cálculo.

Mas vamos nos limitar ao assunto e começar analisando o que a legislação da ANTAQ (Agência Nacional de Transporte Aquaviários), responsável pelo nosso transporte aquaviário, determina sobre, se está sendo cumprido e minha análise sobre o assunto.

É ou não é ilegal cobrarem a taxa cambial acima da PTAX?

A resposta é encontrada no Inciso I, Art. 27 da RESOLUÇÃO NORMATIVA Nº 18, DE 21 DE DEZEMBRO DE 2017

Art. 27. Constituem infrações administrativas de natureza média:

I – na navegação de longo curso, quando o frete estiver expresso em moeda estrangeira, utilizar a conversão para o padrão monetário nacional com base diferente da tabela “taxa de conversão de câmbio” do Sistema de Informações do Banco Central? SISBACEN, utilizada pelo Sistema Integrado do Comércio Exterior – SISCOMEX, vigente na data do efetivo pagamento da fatura: multa de até R$ 100.000,00 (cem mil reais);

Ou seja, é ilegal e prevê uma pena de multa pesada o bastante para fechar a porta de muitos agentes de carga de pequeno porte,o que já demonstra falta de estudo por parte da ANTAQ ao determinar uma multa fixa tão alta, pois desconsidera o “tamanho” dos prestadores de serviço e da operação, além de julgar prematuramente que todos os caso que há o aumento, é porque está sendo exercida de maneira abusiva.

Considera-se uma infração, pois cabe apenas ao Banco Central (BACEN) regular o mercado cambial no Brasil e, portanto, é ele que autoriza quem pode operar negociando a compra e venda de “dinheiros estrangeiros”.

Por isso que os autorizados se limitam a instituições como bancos comerciais, bancos de câmbio e corretoras. É evidente que este conjunto não inclui Armadores e Agentes de Carga, não é? Pois não compramos e vendemos moeda destes, apenas convertemos valores; o “negócio” deles são fretes e serviços logísticos e, por isso, eles estão submetidos ao controle e regulamentação da ANTAQ.

E os Armadores e Agentes de Carga o fazem, mesmo sabendo ser ilegal?

Pois é. A verdade é que desconheço quem não o faça, é uma prática tão comum que basta acessar o site ou ligar para o escritório de qualquer um deles e perguntar qual é a “taxa do dia”, que será informado sem dificuldades.

Essa legislação é de 2017, mas a prática de cobrar a taxa de câmbio PTAX superior ao informado pelo BACEN é antiga e expliquei no artigo anterior que ela é necessária para se proteger da variação cambial ao mesmo tempo aconselhei que precisamos tomar cuidado com as porcentagens abusivas.

O que testemunhamos aqui é mais uma legislação que ficou apenas no papel por ter sido criada sem o trabalho de mudar o modus operandi atual.

Acredito que pouco ou nada melhoraria em nosso comércio exterior acabar com essa prática, digamos que:

Se a ANTAQ conseguisse exigir que a taxa cambial não seja acima da PTAX, iríamos pagar menos no frete internacional?

Se isso acontecesse hoje de alguma forma mágica, imediatamente o valor do frete subiria a um patamar seguro o bastante para que os Armadores e Agentes de Carga se protegessem da variação cambial, ou seria criado algum custo de destino, com nome em inglês pomposo, com o mesmo objetivo, algo como:

  • Oscillation Tax Charge
  • ANTAQ Tax Charge – Em homenagem a Autarquia
  • FX Rate Tax Charge

E, no final, a grande mudança (sarcasmo) na forma que pagamos seria:

Parece uma forma mais simples de apresentar os valores, mas não deixa de ser o famoso trocar seis por meia dúzia, nada mudaria para quem cobra e o Importador teria que pagar mais em custos, como impostos e armazenagem.

Essa proteção cambial encareceria o Valor Aduaneiro da Importação (Produto + Frete + Seguro + o tal do THC que entra ilegal no cálculo (como se não bastasse…).

***

Não se trata de querer defender o interesse Armadores e Agentes de Carga de cobrar a taxa cambial acima da PTAX , não é preciso ter muitos anos no comércio exterior para saber que há problemas mais importantes para a ANTAQ e outras autarquias se preocuparem.

No entanto, é importante fiscalizar, ainda mais num mercado com pouquíssimas opções de Armadores, mas entendo que precisamos buscar a transparência de forma que auxilie tanto quem presta o serviço quanto quem o contrata.

Recomendo a leitura do artigo do Advogado Marcelo Valentim, no Portogente, que me inspirou a desenvolver este texto e sua abordagem legal é um complemento válido.

E você, leitora(o)?

O que pensa sobre o assunto? Acredita que é melhor que se cumpra a legislação ou existe mesmo assuntos mais importantes? Vamos continuar o debate nos comentários.

Quais informações o Agente de Carga precisa para cotar o frete internacional

Quarta-feira, o relógio marca 17:05 quando o telefone toca, é o setor de manutenção que precisa urgente de uma peça para o equipamento que está parado e assim permanecerá enquanto você não cuidar da importação da bendita.

Pior que pouco surpreende, essa máquina quebra tão seguidamente, que vocês apelidaram ela Marea Turbo.

O setor de compras informa que a peça já foi comprada e está pronta para coleta no interior da Bulgária (vish, nunca importaram nada de lá) portanto, o próximo passo para você importador, é procurar seu melhor agente de carga e informar tudo o que for necessário para cotar o frete internacional com sucesso.

Pois, se ao invés de receber a cotação na quinta, lhe for pedido maiores informações ou esclarecimentos, dificilmente a peça do Marea embarcará na sexta.

1 –  Mercadoria.

As mercadorias podem possuir tantas particularidades que é impossível mencionar todas nesse texto. Dependendo da qualidade da fatura proforma ou Comercial, os dados que precisamos estarão lá.

Nome em Inglês/Espanhol.

Pode ser comum no seu segmento os nomes e jargões do que costuma importar e exportar, mas para quem está de fora, é preciso descrever o produto como se estivesse explicando para um leigo, além de também estar no idioma estrangeiro necessário da operação.

Se achar prudente enviar imagens, vídeos, catálogos, não tenha dúvidas de enviar pois, quanto mais informação, melhor.

NCM/HS Code.

Pode acontecer da descrição da mercadoria ser ambígua, mas isso é evitado fornecendo a classificação fiscal, além de proporcionar mais segurança aos armadores e companhias aéreas, evitará erros de interpretação.

Neste ponto, cuidado! Apenas os 6 primeiros números da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) e do Sistema Harmonizado (HS Code) que possuem descrição igual, caso venha informar mais que estes, deixe claro em qual sistema está se baseando, no nosso NCM ou da classificação do país de origem da carga.

Código IMO e MSDS.

Se a mercadoria for considerada perigosa para transporte, é preciso informar a classificação de risco (Hazard Class) que se encontra no MSDS (Material Safety Data Sheet) do produto, se já tiver esse documento, mande-o também.

No Brasil, o documento se chama Ficha de Informações de Segurança de Produto Químico (FISPQ), mas o ideal para cotar é utilizar o MSDS que está em inglês.

O correto na importação é que o exportador forneça o MSDS, mas nada te impede de procurar na internet, tomando o devido cuidado para não enviar versões antigas ou de outro produto!

2- Embalagem e Manuseio.

Poderíamos tratar dela também em Mercadoria, mas a falta de informação é capaz de causar tantos atrasos e prejuízos que merece um subtítulo próprio. Se o Packing List for bem elaborado é possível que todas as informações estejam nele.

Tipo, dimensões e peso.

Estas 3 informações podem ser tão traiçoeiras e desastrosas que prefiro explicar por exemplo:

  • Recebeu informação de que o peso da mercadoria era 80 quilos para cotar o frete, mas quando a mercadoria foi coletada, o peso bruto era 155 e, ao questionar o exportador, descobriu que 80 era o peso líquido, faltou considerar a embalagem mais o pallet utilizado.
  • O americano lhe passou as dimensões de 80x50x50, na hora de pagar o frete o valor ficou muito acima, pois você achou que eram centímetros, mas os EUA trabalha com polegadas.
  • O exportador informou que a embalagem é Box, você concluiu ser um caixa de papelão, mas na verdade era Wooden Box (Caixa de madeira) e ela já está vindo para o Brasil sem o carimbo internacional de madeira tratada.

Infelizmente a principal causa dos erros nesses 3 exemplos está em seguir em frente com a informação imprecisa. Verdade que na prática, não é sempre que temos todas as informações e ainda por cima, corretas.

Mas se a urgência for a prioridade, é preciso contornar essas dificuldades de forma que não causem mais atrasos. Se possível, alerte seu agente das informações imprecisas, desta forma ele poderá montar planos de ação perante os riscos mensurados.

Manuseio.

São as particularidades que costumam estar informadas na embalagem da mercadoria, como as conhecidas: “Não empilhar”, “este lado para cima”, “não girar”, “não pegar chuva”…

E esta informação pode ser crucial para conseguir embarcar antes, digamos que saiba com antecedência que a embalagem e mercadoria permita empilhar, já facilita para conseguir um embarque aéreo ou marítimo consolidado (LCL).

Para cargas normalmente maiores que um container e de alto peso, dependendo da complexidade, o exportador precisa fornecer um desenho que informe pontos de içamento e centro de gravidade.

3- Descrição da Operação.

O planejamento dela começa contigo, mas lembre-se de adicionar seu agente de carga na conversa, essa é a expertise deles, o que pode ser novidade a você, pode já ser rotineiro a ele.

Modo de embarque, porto/aeroporto de origem e destino e Incoterm.

Estas informações são básicas para começar a descrição, seja para fechar ou apenas para se informar sobre os valores de mercado.

Se o processo for FOB (Free on Board) é possível receber a proposta no mesmo dia, diferente de quando o Incoterm definido exige cotar a logística interna no país de embarque, como no EXW (Ex Works).

Caso o processo não seja urgente, vale também avaliar o modo de embarque, se já expliquei no meu texto Por que Importo mais no modo aéreo que no marítimo consolidado é possível ser viável, o contrário também pode ocorrer.

Previsão de prontidão e endereço de coleta.

Se a carga estiver pronta é mais uma razão para o agente cotar o quanto antes, mas caso demore 1 ou 2 semanas é importante avisar, pois os valores de frete oscilam muito, tanto no marítimo quanto aéreo.

As vezes não sabemos na hora o exato endereço de coleta e utilizamos Zip Code para ter uma noção de custos, é válido para agilizar a cotação, mas lembre-se de informar ao agente de carga assim que receber o endereço completo.

Serviços acessórios.

Os agentes com quem você trabalha atualmente podem estar acostumados que seus embarques partindo da Europa precisem ser paletizados ou coletados em 3 endereços diferentes, mas cuidado quando experimentar o serviço com um agente novo, para que ele não seja pego de surpresa por alguma particularidade de sua operação.

Outros serviços mais comuns de solicitar no país de embarque:

  • Armazenagem
  • Confecção de embalagem
  • Separação e Etiquetagem
  • Conferência, relatórios e fotos da operação.

4 – Determine logisticamente sua pressa.

A urgência tem custo e seu valor (e possibilidade de cumprir) varia e dependendo dos aspectos apresentados até o momento.

Portanto, antes de enviar um pedido de cotação, pode ser vantajoso ligar para o agente de carga explicando a operação e a data que precisa da mercadoria, para ele projetar a logística ideal.

É difícil aprofundar este tópico, pois cada importador/exportador, dependendo do segmento e localização do porto e aeroporto mais próximo, definirá sua urgência de forma diferente, a dica aqui é se comunicar com transparência para definir datas, logística e valores.

E você, leitora (o)?

O que mais devemos informar ao agente para cotar frete internacional? Que particularidades seu segmento tem que dificulta as cotações e operações? Vamos engrandecer o assunto nos comentários.


Este artigo foi escrito para os amigos da Cronos Logistics e publicado originalmente em seu blog.


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Quem é o Jonas?

É um cara que trabalha há mais de onze anos com comércio exterior, importação e continua apaixonado pela falta de rotina que essa vida tem! Aliando seu amor pela escrita, desenvolve de forma simples e bem-humorada, pois a leitura não precisa ser um fardo para ensinar.

E o que começou como hobby, rendeu a oportunidade de escrever e palestrar para empresas do ramo como Allog, Cheap2ship, Cronos, DC Logistics, Amtrans, Fazcomex, Logcomex, entre outras.

Quando não escreve, pratica artes marciais, enfrenta sua eterna sua pilha de livros, joga vídeo game desde o Atari e também curte ajudar os outros profissionalmente, seja trocando uma ideia ou com soluções para quem está em apuros.

Talvez ele possa te ajudar, que tal procurá-lo?